Kate Winslet e Jim Carrey no filme 'Brilho Eterno de Uma
Mente Sem Lembranças' (2004): em breve poderemos apagar as memórias com
uma pílula. Valerá a pena?
(Reprodução)
O filme é de 2004, mas ainda está vivo na memória de quem assistiu:
Clementine (Kate Winslet) quer esquecer seu ex-namorado Joel (Jim
Carrey), e para isso se submete a um tratamento experimental que apaga
todas as lembranças dos momentos que passaram juntos. Quase dez anos
depois, pesquisadores estão perto de fazer com que a ficção de
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças se torne realidade. Em breve, finalmente poderemos deletar fatos traumáticos ou indesejados do passado.
Se isso vai ser possível, é porque as memórias não são arquivos
fixos. Muito recentemente, a neurociência confirmou uma hipótese que
surgiu nos anos 1960, mas nunca tinha sido levada a sério: nossas
lembranças são muito mais flexíveis do que se pensava — estão mais para
uma peça de teatro, com suas mudanças sutis noite após noite, do que
para um filme. A cada vez que acessamos uma lembrança, podemos moldá-la
novamente. Não por acaso, em
Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças,
quando percebe que foi deletado do passado de Clementine e resolve
fazer o mesmo, o personagem Joel precisa relembrar toda sua história com
ela. E na medida em que as lembranças veem à tona é que elas podem ser
apagadas. Na vida real, o mesmo objetivo pode ser atingido,
experimentalmente, bloqueando a síntese das proteínas certas.
O resgate e a reconsolidação das lembranças depende da ativação de
uma vasta conexão de neurônios. Para ser formada, uma memória de um
evento qualquer ativa uma série de neurônios, que passam então a ficar
conectados. É essa ligação a responsável por lembrarmos do primeiro
beijo, por exemplo. Se a transmissão é interrompida exatamente no
momento em que determinada memória estava desengavetada, ela não volta
mais para seu lugar de origem — o hipocampo, apesar de muitas das
lembranças negativas ficarem armazenadas na amígdala.
"No nível molecular, o processo de arquivar, acessar e armazenar
novamente a memória, com pequenas mudanças, é simples", afirma a
psicóloga israelense Daniela Schiller, professora da Mount Sinai School
of Medicine, em Nova York, e uma das líderes mundiais nas pesquisas
sobre formação e consolidação de memórias – seu estudo sobre a
maleabilidade das lembranças, publicado em 2010 na respeitadíssima
revista
Nature, ajudou a mudar a visão tradicional que os
próprios cientistas tinham da memória. "Um medicamento que induza a
produção de certas proteínas, exatamente no momento em que o paciente
está repassando determinada lembrança, faz com que ela desapareça."
(Daniela, aliás, se mudou de Telavive para Nova York, a capital dos
estudos de ponta sobre memória, porque acreditou no boato, infundado, de
que o filme
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças era
baseado em uma experiência real conduzida na cidade. Não era, mas ela
acabou entrando em um pós-doutorado sobre memória graças ao erro.)
Fim dos traumas — Uma das proteínas responsáveis por
este processo de reestabilização das conexões neurais é a já conhecida
PKMzeta, descoberta pelo neurologista americano Todd Sacktor, que
pesquisa o assunto dentro do Sunny Downstate Medical Center, no
Brooklyn. E é no desenvolvimento de um medicamento que iniba
temporariamente sua produção que os pesquisadores estão trabalhando. O
desafio é chegar a uma pílula que funcione por pouco tempo e com
precisão cirúrgica: apenas nos circuitos neurais corretos.
Enquanto isso não é possível, existem formas de apagar a lembrança
indesejada antes que ela se consolide. Como a memória é formada em duas
etapas, já é possível neutralizar a primeira, a chamada memória de curto
prazo. "Existem medicamentos que bloqueiam a transformação das memórias
de curto prazo em definitivas. Mas não é possível selecionar a
lembrança que se quer apagar", diz Sacktor. Ou seja: se a pessoa recebe o
tratamento imediatamente após o incidente traumático, ela não vai se
lembrar de absolutamente nada do que aconteceu nos minutos anteriores. O
exército americano está especialmente interessado neste tipo de
pesquisa.
Também já é possível modificar a lembrança, para que ela pareça menos
terrível. Um estudo realizado na Universidade McGill, no Canadá, com dez
pacientes de stress pós-traumático, alcançou resultados expressivos
usando uma droga chamada propranolol, ministrada enquanto as pessoas
contavam, em voz alta, os detalhes dos incidentes traumáticos pelos
quais passaram.
A droga, também usada de forma experimental no tratamento de ansiedade,
alterou os circuitos neuronais o suficiente para que as lembranças
fossem rearmazenadas, agora sem a mesma carga de stress. Uma semana
depois, os pacientes voltaram para a universidade e contaram novamente
suas histórias. Já não apresentavam sintomas de stress, como o batimento
cardíaco acelerado observado no grupo de controle, formado por nove
pessoas. Este tipo de tratamento poderia ser usado para casos de ataques
de pânico – ele poderia amenizar o pavor de ambientes fechados, ou de
aranhas, por exemplo.
Implicações éticas — Mas um remédio capaz de apagar
memórias pode ser perigoso. Ele poderia, em tese, ser usado contra a
vontade do paciente. E pode descaracterizar nossa personalidade. "Nós
somos o o resultado dos relatos que fazemos sobre nossa própria
existência", afirma Todd Sacktor. O americano Henry Gustav Molaison é a
prova disso. Em 1953, ele fez uma cirurgia para conter sua epilepsia: o
neurocirurgião tirou metade de seu hipocampo e toda a amígdala. Quando
acordou, Henry não era mais capaz de armazenar nenhuma memória e apenas
se lembrava de seu passado antes da cirurgia. Até a morte aos 82 anos,
em 2008, ele se olhava no espelho e não se reconhecia: tinha certeza de
ter eternamente 27 anos, a mesma idade com que fez a cirurgia.
Daniela Schiller defende que este tipo de tratamento deverá ser usado
com parcimônia extrema. "As memórias indesejadas também fazem parte do
que somos, e muitas vezes nos impedem de repetir erros do passado", diz.
"Mas, em casos de stress pós-traumático, o trauma é tão profundo que a
lembrança não fica mais fraca com o tempo. E isso inviabiliza uma rotina
normal e saudável. Para estas pessoas, o tratamento pode trazer um
grande alívio". É o caso, por exemplo, de pessoas que sofreram ou
presenciaram acidentes graves, veteranos de guerra ou vítimas de
sequestros, estupros e tortura. Contudo, é bom lembrar que em
Brilho Eterno apagar
as memórias do prévio relacionamento não evita que Clementine e Joel
voltem a ficar juntos e passem pelos mesmos problemas de antes.
Somos a nossa memória
No provocativo livro O Porco Filósofo (Relume Dumará), o
britânico Julian Baggini cria uma pequena história de ficção científica
para explicar como nada nos define mais do que a nossa memória. Em um
mundo no qual a viagem para Marte é feita por teletransporte em questão
de minutos, um cliente da companhia responsável por tais viagens
processa a empresa sob a alegação de que foi morto nesse processo. A
alegação, a princípio absurda, leva em conta que todo passageiro é
recriado em Marte. Então, alega a "vítima", o que se tem é uma cópia, um
clone do original.
Mas se esta cópia pensa igual à anterior, tem os mesmos planos e a
mesma personalidade e, mais importante, as mesmas memórias, o cliente
copiado realmente morreu? O livro não dá respostas fáceis, mas essa
pequena história serve para ilustrar o quanto nossas memórias participam
da construção do nosso eu.
Apesar de parecer extremamente desejável criarmos maneiras de apagar
memórias traumáticas, ou até mesmo as embaraçosas e indesejáveis,
filósofos e cientistas concordam que elas são parte constituinte e
indispensáveis dos elementos que compõem o que somos. Além do perigo de
que, uma vez que nos livremos das memórias que não mais queremos,
voltemos a incorrer nos mesmos erros do passado, as experiências de vida
ajudam a formar, junto com nossa consciência, grande parte do produto
final que convencionou-se chamar de eu.
"A ideia que cada um de nós forma de si mesmo, a imagem que aos
poucos construímos de quem somos física e mentalmente baseia-se na
memória autobiográfica, em anos de experiência, e está sujeita a
contínua remodelação", afirmou o neurocientista português António
Damásio em seu livro O Mistério da Consciência (Cia. das Letras).
Outros animais, como chimpanzés e cães, também têm isso. Nada, porém,
que se compare à riqueza de detalhes e abrangência como ela se manifesta
nos seres humanos. "Essa diferença é amplificada pela linguagem, que é
exclusivamente humana. A linguagem é também a capacidade de codificar as
memórias não verbais numa forma verbal. Isso expande enormemente tudo o
que o ser humano é capaz de memorizar", disse em entrevista a VEJA, em
2010.
Bruce Hood, diretor do Centro de Desenvolvimento Cognitivo da
Universidade de Bristol, na Grã-Bretanha, resumiu: "O eu é a pessoa com
um passado, as memórias do dia anterior, os planos para o futuro." Ou
seja, sem as memórias, o eu não existiria.
Fonte:Tiago Cordeiro - Revista Veja