Mostrando postagens com marcador Memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Memória. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Estudo mostra que nossas memórias são 'editadas'

A memória se “atualiza” com as nossas novas experiências, diz estudo
A memória se “atualiza” com as nossas novas experiências, diz estudo (Thinkstock)
Um novo estudo sugere que a nossa memória não é tão confiável como costumávamos acreditar. Segundo pesquisadores da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, o cérebro continuamente insere fragmentos do presente em lembranças do passado, e está longe de ter a precisão de uma filmadora.
A memória se "atualiza" com as nossas novas experiências. O amor à primeira vista, por exemplo, pode ser fruto desse truque do cérebro. "Quando você pensa no momento em que conheceu seu parceiro atual, pode se lembrar de um sentimento de amor e euforia, mas isso talvez seja uma projeção de seus sentimentos atuais", diz Donna Jo Bridge, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade Northwestern e uma das autoras do estudo, que publicado nesta quarta-feira no periódico Journal of Neuroscience.
O estudo é considerado o primeiro a mostrar de forma precisa as falhas que a memória apresenta, e como ela é capaz de inserir elementos do presente no passado quando as lembranças são revividas. Segundo Donna, as memórias se adaptam a um ambiente em constante mudança para nos ajudar a lidar com o que é importante a cada momento. "Nossa memória não é como uma câmera, ela se ajusta e edita eventos para recriar uma história que se encaixe no seu mundo naquele momento. Ela é construída para ser atual."
A "edição" acontece no hipocampo, área do cérebro encarregada da memória que, segundo o novo estudo, atua como equivalente a um editor de vídeo e equipe de efeitos especiais, reconstruindo as lembranças.

Testes – No experimento, 17 voluntários estudaram a posição de 168 objetos em uma tela de computador com imagens de fundo diferentes — como um oceano ou a vista aérea de uma fazenda. Em seguida, eles deveriam tentar colocar alguns dos objetos de volta na posição original, mas em uma nova imagem de fundo. Essa tarefa foi quase sempre malsucedida.
Na última etapa do estudo, os participantes viam um objeto em três posições diferentes na tela (com a imagem de fundo usada no primeiro teste) e deveriam escolher a correta. As opções eram: onde eles viram o objeto pela primeira vez, onde eles o colocaram na segunda etapa e um lugar novo.
"As pessoas sempre escolheram a mesma localização em que tinham colocado o objeto no segundo teste", explica Donna. "Isso mostra que sua memória original da localização foi modificada para mostrar o lugar em que eles se lembravam no novo plano de fundo. A memória tinha atualizado a informação, inserindo uma nova memória por cima da anterior", afirma. Os participantes realizaram os testes enquanto sua atividade cerebral era monitorada por ressonância magnética.
"Todos gostamos de pensar na memória como uma coisa que nos faz relembrar vividamente a nossa infância ou aquilo que fizemos na semana anterior, mas a memória é feita para nos ajudar a tomar boas decisões no momento e, por isso, ela tem que ficar atualizada. Uma informação que é relevante agora pode se sobrepor ao que estava lá antes", afirma Joel Voss, integrante da equipe de pesquisadores. "Apesar de o estudo ter se passado em um laboratório, é possível supor que a memória se comporte dessa forma no mundo real", diz Donna.

Fonte: Veja

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Demência: o que fazer para evitar um desastre global

Demência Ilustração SPL
Processo de morte das células do cérebro tem início entre dez e 15 anos antes de que os problemas de memória se tornam aparentes
A demência foi identificada por autoridades de saúde como "um desastre global prestes a acontecer", o maior problema médico enfrentado pela geração atual.
A cada quatro segundos, uma pessoa é diagnosticada com alguma forma de demência no mundo. Calcula-se que o número de casos cresça dos 44 milhões atuais para 135 milhões em 2050.
A demência já custa ao mundo US$ 604 bilhões por ano.
O termo demência é usado para descrever quadros médicos em que ocorre a perda - temporária ou permanente - das capacidades cognitivas de um indivíduo. Há múltiplas causas, entre elas, disfunções metabólicas, infecções, desnutrição ou doenças degenerativas como o Mal de Alzheimer.
Nesta semana, representantes do G8 - as oito maiores economias do planeta - se reunirão em Londres para discutir formas de lidar com o problema.
O governo britânico, que ocupa a presidência rotativa do G8, anunciou nesta quarta-feira que está dobrando a verba dedicada à pesquisa sobre demência para 132 milhões de libras (mais de meio bilhão reais) até 2015.
Segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde em 2012, o Brasil é o nono país do mundo com o maior número de casos, com 1 milhão de pacientes com demência.
A BBC perguntou a especialistas da área quais seriam suas prioridades se recebessem os fundos necessários e carta branca para lidar com o problema.

Antecipar diagnósticos

No dia em que seu médico lhe diz que você tem demência, você pode pensar que está vivendo o estágio inicial do problema. No entanto, não é o caso.

O que é demência?

O termo é usado para descrever cerca de cem doenças degenerativas que levam à morte, em grande escala, de células do cérebro.
São afetados a memória, linguagem, agilidade mental, compreensão e juízo do paciente.
A forma mais comum de demência é o Mal de Alzheimer, responsável por 62% dos casos de demência.
A condição do paciente tende a piorar com o tempo, até que ele fique completamente dependente de cuidados.
Não há cura.
O processo de morte das células do cérebro tem início entre dez e 15 anos antes de que os problemas de memória se tornam aparentes.
Ou seja, quando o paciente faz o teste de memória e recebe o diagnóstico, ele já está sofrendo da doença há pelo menos dez anos.
A essa altura, um quinto dos principais centros de memória do cérebro já estão mortos.
Para alguns especialistas, isso talvez explique a ausência de êxito em testes com medicamentos para tratar o problema: eles estão tentando tratar a doença quando já é tarde demais.
O foco na antecipação do tratamento "é absolutamente essencial nas pesquisas", disse o neurologista Nick Fox, do National Hospital for Neurology and Neurosurgery, em Londres.
Já houve algum progresso. Agora já é possível ver algumas das proteínas associadas ao Mal de Alzheimer em tomografias do cérebro, mas o desafio é usar esses recursos para prever o desenvolvimento da demência.
"Houve imensos avanços em tecnologias que produzem imagens so cérebro. Vivemos uma nova era e isso é muito empolgante", disse Fox.
Outros métodos estão sendo investigados, como, por exemplo, técnicas que identificam a presença, no sangue de uma pessoa, de substâncias químicas que ofereçam indícios do desenvolvimento futuro da demência.
Outro ponto que os pesquisadores ressaltam é que há vários tipos de demência. O Mal de Alzheimer, a demência vascular e a demência com Corpos de Lewi têm sintomas similares, mas talvez requeiram tratamentos diferentes.

Interromper mortes de células

Não há remédios capazes de interromper nem desacelerar o progresso de qualquer forma de demência.
Havia muita esperança em duas drogas para tratar o Mal de Alzheimer - Solanezumab e Bapineuzumab - mas elas fracassaram nos testes.
Os experimentos sugerem, no entanto, que existe uma pequena chance de que a droga Solanezumab surta efeito em pacientes em estágios bem iniciais da doença.
Uma nova série de testes está sendo feita em pacientes com demência moderada.
"Se o Solanezumab tiver efeito sobre casos moderados de Mal de Alzheimer, então o caminho seria dar (a droga) cada vez mais cedo", disse Eric Karran, diretor de pesquisas da ONG britânica Alzheimer's Research UK.
Alcançar a cura é, obviamente, o sonho de todo especialista nesse campo. Mas retardar a evolução da demência já traria um impacto gigantesco.
Segundo cálculos, se conseguíssemos atrasar em cinco anos o desenvolvimento da doença, já cortaríamos pela metade o número de pessoas vivendo com demência.

Drogas para sintomas

Existem algumas drogas que ajudam as pessoas a viver com os sintomas da demência, mas não são suficientes.
Há medicamentos capazes de aumentar as sinalizações químicas entre as células do cérebro que sobreviveram.
Calcula-se que o número de casos cresça dos 44 milhões atuais para 135 milhões em 2050
Mas o mais recente medicamento desse tipo, Memantine, foi aprovado em 2003 nos Estados Unidos.
Desde então, não apareceu nenhum outro.
O médico Ronald Petersen, diretor do Alzheimer's Disease Research Centre na Mayo Clinic, Estados Unidos, disse à BBC: "Isso é terrível quando você leva em conta os bilhões que foram investidos nessa doença".
"Existem 44 milhões de pessoas com Mal de Alzheimer e também temos de tratá-las" (além de encontrar uma cura).
"Precisamos desenvolver drogas para tratar os sintomas e retardar o progresso da doença, como fazemos com (pacientes que sofreram) ataques cardíacos".

Minimizar riscos

Você quer cortar radicalmente suas chances de desenvolver câncer de pulmão? Não fume.
Quer evitar um ataque cardíaco? Faça exercícios e adote uma dieta saudável.
Mas se quiser evitar demência, não há respostas definitivas.
A idade é o maior fator de risco. Na Grã-Bretanha, uma em cada três pessoas com idade acima de 95 anos tem demência.
Há indícios de que exercícios regulares e dieta saudável tenham efeitos positivos em prevenir ou retardar o desenvolvimento da demência.
Mas ainda não se sabe com clareza de que forma o histórico familiar, o estilo de vida e o meio-ambiente se combinam para que um indivíduo tenha ou não demência.
O geriatra Peter Passmore, da British Geriatrics Society e da Queen's University Belfast, na Irlanda do Norte, disse que o melhor conselho até agora é: "Manter o coração saudável para evitar danos ao cérebro".
"Evite a obesidade, não fume, faça exercícios regularmente, controle a pressão sanguínea, o açúcar e o colesterol."
"Isso tem poucas chances de fazer mal e pode até fazer bem!"

Como cuidar eficazmente

A demência tem custos imensos para a sociedade, mas as contas médicas respondem por uma porção pequena da custo total.
O custo real está no tempo passado em casas para idosos e na renda perdida por familiares que abandonam seus empregos para cuidar de parentes doentes.
As pesquisas também precisam ser direcionadas para a busca da melhor maneira de se cuidar de pacientes com demência. E também de preservar a independência do paciente pelo maior tempo possível.
Estudos já mostraram que a ingestão de remédios antipsicóticos pode ser cortada pela metade se equipes que trabalham com os pacientes receberem o treinamento adequado.
Doug Brown, da Alzheimer's Society, disse que talvez um dos campos mais fáceis de pesquisa sobre demência seja o estudo de como cuidar dos pacientes.
"Podemos fazer muitos estudos sobre a assistência e os cuidados que oferecemos às pessoas com demência hoje para que vivem da melhor forma possível".

Fonte:

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Proteína oferece pista importante sobre perda de memória com idade

Cérebro
Não se sabe se resultado da pesquisa teria mesmo efeito em cérebros humanos
Cientistas americanos dizem ter encontrado uma pista importante sobre o porque a memória se deteriora com a idade.
Experiências feitas com camundongos sugerem que baixos níveis de proteína no cérebro podem ser responsáveis por perda de memória.
O estudo publicado pela revista científica Science Translational Medicine afirma que a perda de memória não tem relação com Alzheimer.
A equipe do Columbia University Medical Centre começou analisando o cérebro de oito pessoas já falecidas, com idades de 22 a 28 anos, que doaram seus órgãos para pesquisa médica.
Eles encontraram 17 genes cujas atividades variavam com a idade. Um deles continha instruções para fazer a proteína RbAp48, que ficou menos ativo com o tempo.
Camundongos jovens criados com baixos níveis de RbAp48 em laboratório tiveram desempenho mais fraco em testes de memória.
Usando um vírus para melhorar o nível de RbAp48 em camundongos mais velhos pareceu melhorar a memória e reduzir o nível de deterioração.
"O fato de que nós fomos capazes de reverter a memória relacionada ao envelhecimento em camundongos é bastante animador", disse o professor Erica Kandel, que trabalhou na pesquisa.
"No mínimo, mostra que essa proteína é um fator importante, e faz alusão ao fato de que a perda de memória relacionada à idade acontece em função de uma mudança de algum tipo nos neurônios. Ao contrário do Alzheimer, não existe perda signigicativa (no número) de neurônios."
Ainda não se sabe o impacto que o ajuste no nível de RbAp48 tem no cérebro humano, que é mais complexo. Nem mesmo se entende se seria possível manipular estes níveis com confiança.
Simon Ridley, da entidade Alzheimer Research UK, que não participou da pesquisa, disse que os resultados do estudo avança em uma área desafiadora para a ciência, que é a compreensão sobre os mecanismos que causam Alzheimer e os que provocam perda de memória em relação à idade.

Fonte: BBC Brasil

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Cientistas usam rostos famosos para identificar demência precoce


Apesar de ser mais comum entre os idosos, a demência também pode afetar os mais jovens
Apesar de ser mais comum entre os idosos, a demência também pode afetar os mais jovens (Thinkstock)
Pesquisadores da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, conseguiram identificar o início da demência em indivíduos entre os 40 e 65 anos de idade por meio de um teste que usa as fotografias de personalidades célebres como elemento principal. A demência consiste na diminuição progressiva de funções mentais como o raciocínio e a memória. Segundo os pesquisadores, a incapacidade de reconhecer rostos famosos como os do físico Albert Einstein ou do astro Elvis Presley pode indicar o início do problema.
Para chegar à conclusão, publicada nesta terça-feira no periódico Neurology, os cientistas reuniram um grupo de 57 pessoas com média de 60 anos de idade. Enquanto 27 indivíduos desse grupo não apresentavam nenhum tipo de problema em suas habilidades cognitivas, trinta sofriam de afasia progressiva primária, um tipo de demência que se manifesta nas pessoas antes da velhice e afeta o centro da linguagem no cérebro.
Os participantes do estudo examinaram uma série de vinte imagens impressas em preto e branco com rostos de personalidades famosas. O objetivo era conseguir nomear corretamente esses rostos. A cada rosto nomeado, o participante ganhava uma determinada quantidade de pontos; se só conseguia reconhecer, mas esquecia o nome da personalidade da foto, os cientistas pediam para que o indivíduo identificasse o rosto famoso por meio da descrição.
Ao comparar as pontuações obtidas pelos indivíduos afásicos com as conquistadas pelos participantes livres de demência, os cientistas descobriram que os afásicos tiveram um desempenho significativamente menor do que os outros: conseguiram reconhecer 79% dos rostos, e nomear apenas 46% deles. Entre o outro grupo, as porcentagens foram de 97 e 93%, respectivamente.
Envelhecimento — O teste de reconhecimento de faces já era usado antes, porém apenas em pessoas idosas, com mais de 65 anos — faixa etária em que a demência é mais comum. Apesar disso, é importante ressaltar que a demência não é um estágio natural do processo de envelhecimento.
Os cientistas de Northwestern modificaram o teste para que fosse possível identificar a demência em indivíduos mais jovens. Para isso, incluíram os rostos de personalidades relevantes para pessoas com idades entre 40 e 65 anos.
Ressonância magnética — Além do teste, os participantes do estudo também foram submetidos a ressonâncias magnéticas que buscavam identificar as áreas do cérebro responsáveis por reconhecer e nomear rostos famosos.
Os exames mostraram que as pessoas com dificuldade em nomear os rostos têm uma maior tendência à perda de tecido do lobo temporal cerebral esquerdo, enquanto os problemas de reconhecimento estão ligados à perda de tecido em ambos os lobos temporais, direito e esquerdo.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Naming vs knowing faces in primary progressive aphasia

Onde foi divulgada: periódico Neurology

Quem fez: Tamar Gefen, Christina Wieneke, Adam Martersteck, Kristen Whitney, Sandra Weintraub, M.-Marsel Mesulam e Emily Rogalski

Instituição: Universidade de Northwestern, EUA

Dados de amostragem: 57 pessoas com média de 60 anos de idade

Resultado: Os pesquisadores descobriram que é possível identificar o início do declínio das habilidades cognitivas de pessoas antes do envelhecimento, por meio do teste de reconhecimento de faces

Fonte: Revista Veja

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O poder do esquecimento

Kate Winslet e Jim Carrey no filme 'Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças' (2004)

Kate Winslet e Jim Carrey no filme 'Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças' (2004): em breve poderemos apagar as memórias com uma pílula. Valerá a pena? (Reprodução)
O filme é de 2004, mas ainda está vivo na memória de quem assistiu: Clementine (Kate Winslet) quer esquecer seu ex-namorado Joel (Jim Carrey), e para isso se submete a um tratamento experimental que apaga todas as lembranças dos momentos que passaram juntos. Quase dez anos depois, pesquisadores estão perto de fazer com que a ficção de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças se torne realidade. Em breve, finalmente poderemos deletar fatos traumáticos ou indesejados do passado.
Se isso vai ser possível, é porque as memórias não são arquivos fixos. Muito recentemente, a neurociência confirmou uma hipótese que surgiu nos anos 1960, mas nunca tinha sido levada a sério: nossas lembranças são muito mais flexíveis do que se pensava — estão mais para uma peça de teatro, com suas mudanças sutis noite após noite, do que para um filme. A cada vez que acessamos uma lembrança, podemos moldá-la novamente. Não por acaso, em Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, quando percebe que foi deletado do passado de Clementine e resolve fazer o mesmo, o personagem Joel precisa relembrar toda sua história com ela. E na medida em que as lembranças veem à tona é que elas podem ser apagadas. Na vida real, o mesmo objetivo pode ser atingido, experimentalmente, bloqueando a síntese das proteínas certas.
O resgate e a reconsolidação das lembranças depende da ativação de uma vasta conexão de neurônios. Para ser formada, uma memória de um evento qualquer ativa uma série de neurônios, que passam então a ficar conectados. É essa ligação a responsável por lembrarmos do primeiro beijo, por exemplo. Se a transmissão é interrompida exatamente no momento em que determinada memória estava desengavetada, ela não volta mais para seu lugar de origem — o hipocampo, apesar de muitas das lembranças negativas ficarem armazenadas na amígdala.

"No nível molecular, o processo de arquivar, acessar e armazenar novamente a memória, com pequenas mudanças, é simples", afirma a psicóloga israelense Daniela Schiller, professora da Mount Sinai School of Medicine, em Nova York, e uma das líderes mundiais nas pesquisas sobre formação e consolidação de memórias – seu estudo sobre a maleabilidade das lembranças, publicado em 2010 na respeitadíssima revista Nature, ajudou a mudar a visão tradicional que os próprios cientistas tinham da memória. "Um medicamento que induza a produção de certas proteínas, exatamente no momento em que o paciente está repassando determinada lembrança, faz com que ela desapareça." (Daniela, aliás, se mudou de Telavive para Nova York, a capital dos estudos de ponta sobre memória, porque acreditou no boato, infundado, de que o filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças era baseado em uma experiência real conduzida na cidade. Não era, mas ela acabou entrando em um pós-doutorado sobre memória graças ao erro.)

Fim dos traumas — Uma das proteínas responsáveis por este processo de reestabilização das conexões neurais é a já conhecida PKMzeta, descoberta pelo neurologista americano Todd Sacktor, que pesquisa o assunto dentro do Sunny Downstate Medical Center, no Brooklyn. E é no desenvolvimento de um medicamento que iniba temporariamente sua produção que os pesquisadores estão trabalhando. O desafio é chegar a uma pílula que funcione por pouco tempo e  com precisão cirúrgica: apenas nos circuitos neurais corretos.

Enquanto isso não é possível, existem formas de apagar a lembrança indesejada antes que ela se consolide. Como a memória é formada em duas etapas, já é possível neutralizar a primeira, a chamada memória de curto prazo. "Existem medicamentos que bloqueiam a transformação das memórias de curto prazo em definitivas. Mas não é possível selecionar a lembrança que se quer apagar", diz Sacktor. Ou seja: se a pessoa recebe o tratamento imediatamente após o incidente traumático, ela não vai se lembrar de absolutamente nada do que aconteceu nos minutos anteriores. O exército americano está especialmente interessado neste tipo de pesquisa.

Também já é possível modificar a lembrança, para que ela pareça menos terrível. Um estudo realizado na Universidade McGill, no Canadá, com dez pacientes de stress pós-traumático, alcançou resultados expressivos usando uma droga chamada propranolol, ministrada enquanto as pessoas contavam, em voz alta, os detalhes dos incidentes traumáticos pelos quais passaram.

A droga, também usada de forma experimental no tratamento de ansiedade, alterou os circuitos neuronais o suficiente para que as lembranças fossem rearmazenadas, agora sem a mesma carga de stress. Uma semana depois, os pacientes voltaram para a universidade e contaram novamente suas histórias. Já não apresentavam sintomas de stress, como o batimento cardíaco acelerado observado no grupo de controle, formado por nove pessoas. Este tipo de tratamento poderia ser usado para casos de ataques de pânico – ele poderia amenizar o pavor de ambientes fechados, ou de aranhas, por exemplo.
Implicações éticas — Mas um remédio capaz de apagar memórias pode ser perigoso. Ele poderia, em tese, ser usado contra a vontade do paciente. E pode descaracterizar nossa personalidade. "Nós somos o o resultado dos relatos que fazemos sobre nossa própria existência", afirma Todd Sacktor. O americano Henry Gustav Molaison é a prova disso. Em 1953, ele fez uma cirurgia para conter sua epilepsia: o neurocirurgião tirou metade de seu hipocampo e toda a amígdala. Quando acordou, Henry não era mais capaz de armazenar nenhuma memória e apenas se lembrava de seu passado antes da cirurgia. Até a morte aos 82 anos, em 2008, ele se olhava no espelho e não se reconhecia: tinha certeza de ter eternamente 27 anos, a mesma idade com que fez a cirurgia.

Daniela Schiller defende que este tipo de tratamento deverá ser usado com parcimônia extrema. "As memórias indesejadas também fazem parte do que somos, e muitas vezes nos impedem de repetir erros do passado", diz. "Mas, em casos de stress pós-traumático, o trauma é tão profundo que a lembrança não fica mais fraca com o tempo. E isso inviabiliza uma rotina normal e saudável. Para estas pessoas, o tratamento pode trazer um grande alívio". É o caso, por exemplo, de pessoas que sofreram ou presenciaram acidentes graves, veteranos de guerra ou vítimas de sequestros, estupros e tortura. Contudo, é bom lembrar que em Brilho Eterno apagar as memórias do prévio relacionamento não evita que Clementine e Joel voltem a ficar juntos e passem pelos mesmos problemas de antes.

Somos a nossa memória

No provocativo livro O Porco Filósofo (Relume Dumará), o britânico Julian Baggini cria uma pequena história de ficção científica para explicar como nada nos define mais do que a nossa memória. Em um mundo no qual a viagem para Marte é feita por teletransporte em questão de minutos, um cliente da companhia responsável por tais viagens processa a empresa sob a alegação de que foi morto nesse processo. A alegação, a princípio absurda, leva em conta que todo passageiro é recriado em Marte. Então, alega a "vítima", o que se tem é uma cópia, um clone do original.
Mas se esta cópia pensa igual à anterior, tem os mesmos planos e a mesma personalidade e, mais importante, as mesmas memórias, o cliente copiado realmente morreu? O livro não dá respostas fáceis, mas essa pequena história serve para ilustrar o quanto nossas memórias participam da construção do nosso eu.

Apesar de parecer extremamente desejável criarmos maneiras de apagar memórias traumáticas, ou até mesmo as embaraçosas e indesejáveis, filósofos e cientistas concordam que elas são parte constituinte e indispensáveis dos elementos que compõem o que somos. Além do perigo de que, uma vez que nos livremos das memórias que não mais queremos, voltemos a incorrer nos mesmos erros do passado, as experiências de vida ajudam a formar, junto com nossa consciência, grande parte do produto final que convencionou-se chamar de eu.
"A ideia que cada um de nós forma de si mesmo, a imagem que aos poucos construímos de quem somos física e mentalmente baseia-se na memória autobiográfica, em anos de experiência, e está sujeita a contínua remodelação", afirmou o neurocientista português António Damásio em seu livro O Mistério da Consciência (Cia. das Letras).

Outros animais, como chimpanzés e cães, também têm isso. Nada, porém, que se compare à riqueza de detalhes e abrangência como ela se manifesta nos seres humanos. "Essa diferença é amplificada pela linguagem, que é exclusivamente humana. A linguagem é também a capacidade de codificar as memórias não verbais numa forma verbal. Isso expande enormemente tudo o que o ser humano é capaz de memorizar", disse em entrevista a VEJA, em 2010.
Bruce Hood, diretor do Centro de Desenvolvimento Cognitivo da Universidade de Bristol, na Grã-Bretanha, resumiu: "O eu é a pessoa com um passado, as memórias do dia anterior, os planos para o futuro." Ou seja, sem as memórias, o eu não existiria.

Fonte:Tiago Cordeiro - Revista Veja


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Estudo identifica proteína que 'dirige' conversão de aprendizado em memória


Falta da proteína Arc poder ter relação com Alzheimer e autismo

Cientistas encontraram novas informações sobre a função de uma importante proteína no cérebro utilizada no processo que transforma o aprendizado em memória de longo prazo.
Em artigo na revista científica Nature Neuroscience, eles afirmam que mais pesquisas sobre o papel da proteína Arc (actin-regulated cytoskeleton) poderia ajudar na busca por novos tratamentos contra doenças neurológicas.
A mesma proteína pode ser um fator atuante no autismo, dizem os cientistas. Pesquisas recentes detectaram a falta da proteína Arc no cérebro de pacientes de Alzheimer e indicado que a função da proteína era crucial.
Para o professor de neurologia e fisiologia da Universidade da Califórnia Steve Finkbeiner, que liderou a nova pesquisa, "cientistas já sabiam que a Arc estava envolvida na memória de longo prazo, porque estudos em cobaias com falta dessa proteína podiam aprender novas tarefas, mas falhavam ao tentar lembrá-las no dia seguinte".
Os novos experimentos, mais aprofundados, revelaram que a proteína Arc age como um "regulador mestre" dos neurônios durante o processo de formação da memória de longo prazo.
A pesquisa revelou que, durante a formação da memória, certos genes eram ativados e desativados em intervalos de tempo específicos para que fossem geradas as proteínas que ajudam os neurônios a estabelecer novas memórias.

Direção

Os cientistas descobriram que a proteína Arc "dirigia" esse processo, a partir do núcleo do neurônio.
Finkbeiner disse que pessoas com falta dessa proteína poderiam ter problemas de memória.
"Cientistas descobriram recentemente que a Arc se esgotava no hipocampo - o centro da memória no cérebro - em pacientes de Alzheimer."
"É possível que estas interrupções durante o processo de controle homeostático possam contribuir para o aprendizado e para os deficit de memória em pacientes de Alzheimer."
A pesquisa também confirmou que disfunções na produção e transporte da proteína Arc podem ter uma papel-chave no autismo.
A Síndrome do X Frágil, por exemplo, vista como uma causa comum tanto de autismo como de retardo mental, afeta diretamente a produção de proteína Arc em neurônios.
O time californiano de cientistas afirmou que mais estudos são necessários sobre a função da proteína Arc para a saúde humana.
Eles ressaltaram que entender o papel da Arc em doenças poderia contribuir para uma maior compreensão desses problemas e ajudar na criação de novas estratégias terapêuticas para combatê-las.

Fonte: BBC

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Cientistas criam chip que restaura a memória


cérebro
Memória reativada: microchip seria capaz de devolver ao cérebro a capacidade de registrar memórias de longo prazo, simulando os impulsos nervosos emitidos por neurônios saudáveis em regiões afetadas por algumas doenças cerebrais (Thinkstock)
Um grupo de neurocientistas de diversas universidades americanas estima que, em até dez anos, será possível reverter problemas de memória com o implante de um microchip no cérebro. Até agora, a estratégia já foi testada com ratos e macacos, e seus resultados levaram a revista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, a MIT Technology Review, a incluir a pesquisa entre os dez principais avanços tecnológicos de 2013.
Os autores analisaram o processo a partir do qual as memórias de longo prazo (aquelas das quais nos lembramos por dias ou anos) são criadas e armazenadas no cérebro, a fim de simulá-lo nos casos em que o cérebro sofreu algum dano. Eles têm como foco o hipocampo, região do cérebro na qual a memória de curto prazo, aquela que dura alguns segundos ou minutos, é transformada em memória de longo prazo.
Ted Berger, professor de engenharia biomédica da Universidade do Sul da Califórnia e integrante da equipe de pesquisadores, analisou como os sinais elétricos se propagam através dos neurônios dessa região e utilizou seu conhecimento na área da matemática para criar um modelo que imita essa movimentação.
De acordo com Berger, o processo não consiste em colocar as memórias de uma pessoa em seu cérebro, mas sim devolver a ele a capacidade de gerar memórias, estimulando uma área danificada a replicar a função das células sadias. Ainda não foram realizados testes com seres humanos, mas experimentos com animais mostraram que os eletrodos podem processar a informação da mesma forma que um neurônio.


Experimentos – Em testes com ratos, os pesquisadores treinaram os animais para puxar uma de duas alavancas para receber uma recompensa e gravaram as séries de pulsos elétricos no hipocampo quando faziam a escolha correta. Eles observaram como esses sinais se transformavam à medida que a lição aprendida se transformava em uma memória de longo prazo e então extraíram um código que representasse essa lembrança. Em um segundo momento, os cientistas deram aos ratos drogas que prejudicavam sua memória, fazendo com que eles esquecessem qual era a alavanca que oferecia a recompensa. Então, utilizaram o microchip para reproduzir os pulsos elétricos gravados no cérebro dos animais. Resultado: os ratos relembraram qual era a alavanca correta.
No ano passado, foram realizados experimentos similares com macacos, envolvendo o córtex pré-frontal, parte do cérebro que recupera as memórias criadas pelo hipocampo. Os pesquisadores posicionaram os eletrodos no cérebro dos animais para decodificar os sinais correspondentes à lembrança de uma imagem. Na etapa seguinte do experimento, deram cocaína aos macacos, droga que atua negativamente sobre córtex pré-frontal, comprometendo a memória dos animais. Depois, utilizando os eletrodos para enviar o código correto ao cérebro dos macacos, os pesquisadores melhoraram significativamente seu desempenho em uma tarefa de identificação das imagens.
Um dos principais objetivos no campo do estudo da memória é o tratamento do Alzheimer. Porém, diferentemente dos derrames e outras doenças cerebrais, o Alzheimer tende a afetar diversas partes do cérebro, especialmente quando já se encontra em estágio avançado. Por essa razão, os pesquisadores acreditam que  essa técnica de implantes cerebrais não será uma opção viável para o tratamento da doença, pelo menos a curto prazo.

Fonte: Revista Veja

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Músico com memória de 10 segundos após infecção surpreende ciência


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apesar da amnésia, habilidade musical de maestro britânico permanece intacta

BBC Brasil | 22/11/2011 06:58

Cientistas creem estar perto de descobrir por que uma pessoa que sofre de amnésia e perde a memória de quase tudo na sua vida consegue ainda reter conhecimentos musicais. A resposta pode estar no fato de que as memórias musicais são armazenadas em partes diferentes do cérebro que a de outras memórias.
Quando o maestro britânico Clive Wearing contraiu uma infecção no cérebro em 1985 – uma encefalite por herpes – ficou com uma capacidade de recordar apenas os eventos ocorridos 10 segundos antes. A infecção danificou uma parte do seu cérebro conhecida como lobo temporal médio.

Cilve como maestro, sete meses antes da amnésia
Embora apresentasse um dos casos mais graves de amnésia conhecido pelos cientistas, a habilidade musical do condutor permaneceu intacta. Hoje com 73 anos, Wearing consegue ler partitura e tocar música no piano, e chegou inclusive a reger seu antigo coral.
Em um congresso da Sociedade para a Neurociência realizado neste mês em Washington, um grupo de cientistas alemães descreveu o caso de um violoncelista profissional – identificado apenas como PM – que contraiu encefalite por herpes em 2005. Incapaz de recordar as coisas mais simples – como a imagem de sua própria casa –, PM manteve intacta a sua memória musical.

Anatomia do cérebro
Segundo o médico que estudou o paciente, Carsten Finke, do Hospital Universitário de Charite, em Berlim, o lobo temporal médio do cérebro, severamente afetado em casos de encefalite por herpes, é "altamente relevante" para a memória de eventos e como, onde e quando eles ocorrem. "Mas estes casos sugerem que a memória musical pode ser armazenada de forma independente do lobo temporal médio", afirma o dr. Finke.
A equipe de cientistas alemães também estudou o caso de um paciente canadense nos anos 1990 que perdeu toda a sua memória musical após uma cirurgia que danificou especificamente uma parte do cérebro chamada de giro temporal superior. O caso levou a equipe a sugerir que as estruturas do cérebro usadas para armazenar memória musical "devem ser o giro temporal superior ou os lobos frontais".
Entretanto, o médico acredita que são necessárias novas pesquisas para confirmar a hipótese. "O que é realmente novo nesses casos é que mesmo em casos de amnésia densa e grave ainda existem ilhas de memória intactas, a memória musical", afirmou.
"Esta memória pode ser usada como um ponto de acesso a esses pacientes. Podemos pensar, por exemplo, em relacionar música a atividades específicas, como tomar medicação, ou submetê-los a musicoterapia para recuperar qualidade de vida."

Velhos hábitos
A neuropsicóloga Clare Ramsden ressalta que a memória musical é diferente dos outros tipos de memória. "Não é apenas conhecimento, é algo que você faz", define. A sua entidade, Brain Injures Rehabilitation, voltada para a reabilitação cerebral, estudou os casos de três músicos, incluindo Clive Wearing. As conclusões mostram que as atividades musicais envolvem diferentes partes do cérebro.
"Nossa pesquisa está começando a mostrar que as pessoas com dano nos lobos frontais têm suas habilidades musicais afetadas de forma diferente de pessoas como Clive, cujos lobos temporais médios foram danificados", disse Ramsden.
"Clive ainda consegue ler partituras e tocar música. As pessoas com danos nos lobos frontais podem ter dificuldades de ler uma partitura e tocar uma música pela primeira vez, mas são boas em músicas que elas já sabem."
Para o professor Alan Baddeley, autor de estudos sobre Wearing pela Universidade de York, todos os casos "mostram que a memória não é unitária" e que "há mais de um tipo de memória". "A amnésia não destroi hábitos, mas os pacientes perdem a capacidade de adquirir e reter informação sobre novos eventos."

Handel
A esposa de Clive, Deborah, é autora de um livro, Forever Today ("Para sempre hoje", em tradução livre), que relata como a vida do casal mudou desde a amnésia do marido. "Mesmo tendo um piano no quarto há 26 anos, ele não sabe disso até que o instrumento seja mostrado para ele", contou Deborah à BBC.
Entretanto, diz, "se você der para ele uma música nova, a visão dele percebe a partitura e ele toca a música no piano, mas sem aprendê-la". "Clive não sabe que tocava piano, nem que ainda sabe como tocar."
A esposa diz que, mesmo sem saber, o ex-maestro melhora sua apresentação cada vez que toca uma determinada música, e que ele ainda é capaz de tocar, instintivamente, canções que sabia de cor no passado. "Ele aprendeu Messias de Handel quando era criança e ainda sabe cantá-la."
Deborah diz que a música "é o único lugar onde podemos estar juntos, porque enquanto a música está tocando ele é completamente si mesmo". "Quando a música para, ele volta a cair do abismo. Não sabe nada sobre sua vida. Não sabe nada do que aconteceu com ele em toda sua vida."