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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Brasileiros desenvolvem jogo para auxiliar no tratamento do TDAH

Jogo de videogame desenvolvido a partir de teorias de psicologia e neurociência pode ajudar jovens que sofrem com o TDAH a controlar impulsividade
Jogo de videogame desenvolvido a partir de teorias de psicologia e neurociência pode ajudar jovens que sofrem com o TDAH a controlar impulsividade (Thinkstock)
Em parceria com cientistas da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estão desenvolvendo um jogo de videogame que pode ajudar no tratamento de jovens com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). A ideia é que ao jogar, esses jovens treinem seu controle inibitório — habilidade cerebral responsável por barrar respostas inadequadas a estímulos do ambiente, geralmente prejudicada nos indivíduos com TDAH.
De acordo com Thiago Straler Rivero, psicólogo idealizador do projeto, o jogo é recomendado para crianças e adolescentes entre os oito e 14 anos de idade. “Os maiores problemas do TDAH costumam se destacar na adolescência, durante o ensino médio. Então, se conseguirmos treinar os jovens e seus controles inibitórios antes desta fase, será ótimo”, diz, em entrevista ao site de VEJA. Na adolescência, a tendência a agir por impulso é naturalmente maior, e a falta de controle inibitório pode causar problemas como o abuso de substâncias (drogas e álcool, por exemplo), sexo sem proteção e brigas.
Project Neumann — O jogo, que está em fase de testes, foi batizado de Project Neumann e foi desenvolvido para PC. O enredo é construído com heróis que ajudam o protagonista a enfrentar o maior vilão da história, o próprio TDAH. Rivero explica que o Project Neumann é metacognitivo, ou seja, busca fazer com que o jogador leve o aprendizado que fez no jogo para a vida real.
Para isso, cada fase do jogo aborda uma dificuldade apresentada pelos portadores do TDAH, como organização, planejamento e foco da atenção, além de expor os jogadores a inúmeros estímulos simultâneos — da mesma forma que na vida real. “Pedir para que as crianças afetadas pelo TDAH façam apenas atividades simples, como palavras cruzadas, não adianta muito. Na vida real, recebemos vários estímulos ao mesmo tempo, e a criança com TDAH precisa aprender a lidar com isso”, diz o psicólogo.
Em uma das fases do Project Neumann, por exemplo, uma princesa é transformada por um mago em uma bola e jogada do alto de uma torre. A fim de evitar a queda da princesa, o jogador precisa dar toques constantes na bola, para que ela continue flutuando. Simultaneamente, porém, há diversos tesouros na cena, fazendo com que o jogador decida entre salvar a princesa ou recolher os tesouros. A escolha certa e que faz avançar de nível, é claro, é salvar a princesa — ativa-se a área do cérebro responsável pela avaliação da recompensa, treinando-os a pensar nas consequências futuras de seus atos, e não apenas no imediato.
Avaliações — Até o momento, já foram realizadas quatro pesquisas que avaliaram apenas a usabilidade do Project Neumann — analisaram aspectos como o funcionamento correto dos controles e o nível de entretenimento oferecido aos jogadores. Dessa etapa de testes, participaram cerca de 100 voluntários com idades entre dez e vinte anos.
A próxima fase de avaliações incluirá testes com grupos de faixa etária mais delimitada e com crianças autistas. A fim de assegurar que o jogo estimule as áreas cerebrais corretas para gerar os efeitos positivos desejados, os voluntários serão submetidos a ressonâncias magnéticas funcionais enquanto jogam o Project Neumann. É nesse momento que entra a colaboração com os americanos da Universidade de Duke: eles atuarão no projeto fornecendo a tecnologia necessária para que os exames sejam realizados.
Mercado — Segundo Rivero, o jogo deve ser gratuito para os jovens que sofrem com o TDAH. Haverá, no entanto, uma licença a ser cobrada apenas de médicos e terapeutas que queiram usar a ferramenta em clínica. O Project Neumann conta ainda com um mecanismo que enviará estatísticas de desempenho do jogador para um e-mail cadastrado. Assim, pais ou o psicólogo poderão acompanhar sua evolução. “A ideia é cobrar pelo envio desses dados”, afirma.

Fonte: Mariana Janjacomo - Revista Veja

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Tratamento de TDAH na berlinda

A pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp defende uma posição polêmica. Ela questiona se o TDAH (ou Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) seria mesmo uma doença neurológica, já que alteraria somente o comportamento e a aprendizagem. Ela argumenta que os critérios de diagnóstico desta doença são vagos e amparados em normas sociais e que, mesmo assim, 75% deles não preenchem tais critérios. “Uma criança mais criativa e que tenha menos limites corre o risco de sair com esse diagnóstico de uma consulta”.
Aliado a esse posicionamento, ela alerta sobre o uso indiscriminado do metilfenidato, conhecido pelos nomes comerciais Ritalina e Concerta, e questiona a sua eficácia. O consumo do medicamento aumentou 75% em crianças com idade de 6 a 16 anos, entre 2009 e 2011, no Brasil, segundo dados do Boletim de Farmacoepidemiologia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Em nenhum outro caso da Medicina esse número subiu tanto: o número de caixas do medicamento vendidas passou de 71 mil para 2 milhões de 2000 a 2010”, assinala. Confira a entrevista:
Divulgação
Divulgação / <b>Perfil</b>: A pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés é professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp
Perfil: A pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés é professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp

O que significam os números relacionados ao diagnóstico e à venda de medicamentos para o TDAH?
Isso serve de alerta. Não questiono que existam pessoas com os comportamentos que caracterizam o TDAH – como desatenção e dificuldades de aprendizagem –, mas não é comprovado que exista uma doença neurológica que altere apenas o comportamento e a aprendizagem. Observo que está se perdendo o foco no diagnóstico e deixando de lado a avaliação dos motivos desses comportamentos. Um dado importante é que, quando se fala que de 5% a 10% das pessoas podem ter um transtorno, quem tem o mínimo de conhecimento médico sabe que este distúrbio deve ser encarado como um produto social e não como uma doença inata. Ou seja, tem a ver com o estilo de vida.
Quais são hoje os critérios para avaliação do TDAH?
Os critérios para avaliação desse transtorno são vagos, imprecisos e abrangentes (foi criado um questionário, chamado SNAP-IV, para definir o diagnóstico a partir dos sintomas do Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Americana de Psiquiatria). Pegue, por exemplo, um dos itens deste questionário “com que frequência você comete erros por falta de atenção quando tem de trabalhar num projeto chato ou difícil?”. Com quem não acontece isso? Não são critérios de doença, mas normas sociais. Mesmo assim, 75% destes diagnósticos não acabam preenchendo tais critérios.
Quem vem recebendo o diagnóstico desta doença?
São crianças e adolescentes com uma infinidade de quadros. Elas são extremamente agitadas, inquietas, mais ativas, questionadoras. Por exemplo, de acordo com esse questionário, se a criança não presta atenção na aula, mas presta atenção no videogame, um comportamento não anula o outro. Esse questionário não tem modulação. Também há um grupo não desprezível que manifesta esse comportamento como uma resposta para algum conflito ou violência, que pode ser física ou psíquica. E há ainda um terceiro grupo, também não desprezível, que tem doenças neurológicas ou psiquiátricas que são simplesmente diagnosticadas com o TDAH, escondendo o real problema.
O que podemos falar aos pais que estão passando por essa situação?
Eles precisam se reapropriar dos seus conhecimentos como pais, olhar mais para seus filhos e ser mais críticos quanto ao diagnóstico. Muitas vezes este comportamento é um pedido de ajuda da criança. Tem que haver uma orientação familiar para essas crianças e, se preciso, psicológica.
Se uma criança chegasse ao seu consultório com sintomas como agressividade, falta de concentração e impulsividade (que, na teoria, seriam sintomas da TDAH), como a senhora a trataria?
Se ela estivesse um pouco mais agitada, mais agressiva do que o padrão, tentaria entender o motivo, o contexto e pesquisar os pais também. Em algumas crianças você vai encontrar o porquê, em outras não. E essas são as incógnitas da Medicina. Mas, diagnosticá-la com TDAH é deixar de investigar o real problema. Eu não sou contra medicamentos, mas não prescrevo drogas psicoativas.
Por que não?
Temos que ter uma cautela especial aos dos efeitos adversos. São muitas as reações. E com crianças e adolescentes esse cuidado deve ser infinitamente maior, pois estamos falando de estimulantes do sistema nervoso central.
Por causa desse diagnóstico, muitas crianças têm tomado a Ritalina ou o Concerta. O que eles podem causar?
Ele é um estimulante e pode causar dependência. O metilfenidato é um estimulante do sistema nervoso central que tem a mesma ação das anfetaminas e da cocaína: aumentar a concentração de dopaminas, o neurotransmissor ligado ao prazer, nas sinapses. Assim, o que acalma a pessoa é outra dose da droga. Existem outras reações adversas, como cefaleia, tontura, surtos de insônia, sonolência e o efeito zombie like, em que a pessoa fica quimicamente contida em si mesma. O que também vale ressaltar é que não há comprovação científica de que ele funciona. Uma pesquisa feita pelo Centro de Medicina baseado em evidências da Universidade de McMaster (Canadá) apontou que dos 10 mil trabalhos que provaram que o metilfenidato funciona, apenas 12 foram considerados trabalhos científicos. Destes, foram encontrados que a orientação familiar tem alta evidência de bons resultados, enquanto o medicamento tem baixa evidência.
A senhora acredita que o uso indiscriminado do metilfenidato pode ser um exemplo de medicalização da educação?
Seria um exemplo. A medicalização não necessariamente quer dizer dar remédio e nem necessariamente por médicos, mas transformar um problema coletivo em uma doença inata. E são muitas as consequências: a primeira delas a de transformar essa criança em um doente. Mas também pode se chegar ao ponto de que, quando ela obtiver algum sucesso, não acreditar que foi por méritos próprios, mas por causa do remédio. Além, claro, de ocultar os problemas reais.

Confira o questionário de avaliação dos sintomas do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, que contém 18 situações baseadas no Manual de Diagnóstico e Estatística – IV, da Associação Americana de Psiquiatria. As respostas variam de nem um pouco a demais:

1. Não consegue prestar muita atenção a detalhes ou comete erros por descuido nos trabalhos da escola ou tarefas
2. Tem dificuldade de manter a atenção em tarefas ou atividades de lazer
3. Parece não estar ouvindo quando se fala diretamente com ele
4. Não segue instruções até o fim e não termina deveres de escola, tarefas ou obrigações
5. Tem dificuldade para organizar tarefas e atividades
6. Evita, não gosta ou se envolve contra a vontade em tarefas que exigem esforço mental prolongado
7. Perde coisas necessárias para atividades (ex: brinquedos, deveres da escola, lápis ou livros)
8. Distrai-se com estímulos externos
9. É esquecido em atividades do dia-a-dia
10. Mexe com as mãos ou os pés ou se remexe na cadeira
11. Sai do lugar na sala de aula ou em outras situações em que se espera que fique sentado
12. Corre de um lado para outro ou sobe demais nas coisas em situações em que isto é inapropriado
13. Tem dificuldade em brincar ou envolver-se em atividades de lazer de forma calma
14. Não para ou frequentemente está a “mil por hora”
15. Fala em excesso
16. Responde as perguntas de forma precipitada antes de elas terem sido terminadas
17. Tem dificuldade de esperar sua vez
18. Interrompe os outros ou se intromete (ex: intromete-se nas conversas, jogos, etc.)
Fonte: www.tdah.org.br


Fonte: Gazeta do Povo

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Hiperatividade pode atrapalhar na escola

Quase toda criança tem aquela pilha que parece não acabar. Enquanto pequenos, esgotam essa energia brincando, mas, quando crescem, a hiperatividade pode
atrapalhar o rendimento escolar. O diagnóstico do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), tem sido cada vez mais comum. Por este motivo, as
vendas de um remédio de tarja preta, recomendado para este tratamento, aumentaram tanto que chegou a faltar no mercado brasileiro no início deste ano. A
situação só foi normalizada em maio.
O Metilfenidato, vendido com os nomes de Ritalina e Concerta, diminui os episódios de dispersão em sala de aula. Desta forma, o aluno consegue compreender
melhor o conteúdo e melhora, consequentemente, o rendimento escolar. Por isso, o consumo desta medicação no país aumentou 75% em crianças com idade de
6 a 16 anos, entre 2009 e 2011, de acordo com o Boletim de Farmacoepidemiologia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), divulgado em fevereiro
deste ano.
O médico psiquiatra Marco Antônio Marques Ribeiro Bessa, doutor em Ciências, acredita que o medicamento pode sim promover um melhor desempenho das
crianças na escola. “O Metilfenidato pode contribuir para significativa melhora no rendimento escolar de portadores de TDAH ao melhorar a capacidade de
concentração e a hiperatividade”, defende. Para ele, a “moda” na prescrição de Ritalina é uma consequência da melhora no diagnóstico do TDAH por médicos
com mais informação e treinamento.
O uso do Metilfenidato nos jovens, entretanto, preocupa quase todos os envolvidos no magistério, que defendem que a culpa da recomendação crescente de
Ritalina é o diagnóstico errado. “Para justificar a indisciplina na escola, busca-se o padrão de bom aluno, quieto, que não questiona e, principalmente, que segue
regras. Aqueles que estão distantes desse padrão são encaminhadas, muitas vezes pelos próprios professores, a investigação neurológica e psicológica. Muitos
problemas sociais e encaminhamentos que deveriam ser pedagógicos são substituídos hoje pela medicação precoce”, garante a pedagoga Maria Carolina Lobo
Oliveira.
A psicopedagoga Janaína Paloma Andrade Duda concorda que o diagnóstico precoce tem ocorrido com frequência e pode causar sérios problemas para o
paciente, incluindo a dependência do medicamento. De acordo com ela, o Brasil é o segundo país que mais consome Ritalina no mundo, perdendo apenas para
os Estados Unidos. “Vejo que, nas escolas, muitas crianças são ‘diagnosticadas’ com TDAH e, consequentemente, a prescrição da Ritalina virou moda. Muitas
vezes, o diagnóstico é feito de maneira errônea pelos médicos, sendo necessária uma investigação mais profunda, que deve ser realizada em conjunto por
especialistas, como psicopedagogos, psicólogos e neuropediatras”, ressalta.
Bessa lembra que os efeitos colaterais do Metilfenidato são fortes, como nervosismo, insônia, perda de apetite, dores abdominais e vômitos, principalmente no
início do tratamento. Segundo o psiquiatra, em crianças, o remédio também pode gerar uma diminuição da velocidade do crescimento, que pode ser compensada
nas férias do período escolar, com a interrupção do tratamento.
Preocupada com o futuro dessa geração, Maria Carolina alerta que o resultado da melhora no desempenho escolar de algumas das crianças que são medicadas
com Ritalina pode ser ilusão. “Ela faz com que a pessoa produza, de maneira acrítica e mecânica, mas produza satisfatoriamente, o que é solicitado. Estas
Hiperatividade pode atrapalhar na escola.

Fonte: Paraná-Online