A
pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do
Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da
Unicamp defende uma posição polêmica. Ela questiona se o TDAH (ou
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) seria mesmo uma
doença neurológica, já que alteraria somente o comportamento e a
aprendizagem. Ela argumenta que os critérios de diagnóstico desta doença
são vagos e amparados em normas sociais e que, mesmo assim, 75% deles
não preenchem tais critérios. “Uma criança mais criativa e que tenha
menos limites corre o risco de sair com esse diagnóstico de uma
consulta”.
Aliado a esse posicionamento, ela alerta
sobre o uso indiscriminado do metilfenidato, conhecido pelos nomes
comerciais Ritalina e Concerta, e questiona a sua eficácia. O consumo do
medicamento aumentou 75% em crianças com idade de 6 a 16 anos, entre
2009 e 2011, no Brasil, segundo dados do Boletim de Farmacoepidemiologia
da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Em nenhum outro
caso da Medicina esse número subiu tanto: o número de caixas do
medicamento vendidas passou de 71 mil para 2 milhões de 2000 a 2010”,
assinala. Confira a entrevista:
Divulgação
Perfil: A pediatra Maria Aparecida
Affonso Moysés é professora titular do Departamento de Pediatria da
Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp
O que significam os números relacionados ao diagnóstico e à venda de medicamentos para o TDAH?
Isso serve de alerta. Não questiono que existam pessoas com os
comportamentos que caracterizam o TDAH – como desatenção e dificuldades
de aprendizagem –, mas não é comprovado que exista uma doença
neurológica que altere apenas o comportamento e a aprendizagem. Observo
que está se perdendo o foco no diagnóstico e deixando de lado a
avaliação dos motivos desses comportamentos. Um dado importante é que,
quando se fala que de 5% a 10% das pessoas podem ter um transtorno, quem
tem o mínimo de conhecimento médico sabe que este distúrbio deve ser
encarado como um produto social e não como uma doença inata. Ou seja,
tem a ver com o estilo de vida.
Quais são hoje os critérios para avaliação do TDAH?
Os critérios para avaliação desse transtorno são vagos, imprecisos e
abrangentes (foi criado um questionário, chamado SNAP-IV, para definir o
diagnóstico a partir dos sintomas do Manual de Diagnóstico e
Estatística da Associação Americana de Psiquiatria). Pegue, por exemplo,
um dos itens deste questionário “com que frequência você comete erros
por falta de atenção quando tem de trabalhar num projeto chato ou
difícil?”. Com quem não acontece isso? Não são critérios de doença, mas
normas sociais. Mesmo assim, 75% destes diagnósticos não acabam
preenchendo tais critérios.
Quem vem recebendo o diagnóstico desta doença?
São crianças e adolescentes com uma infinidade de quadros. Elas são
extremamente agitadas, inquietas, mais ativas, questionadoras. Por
exemplo, de acordo com esse questionário, se a criança não presta
atenção na aula, mas presta atenção no videogame, um comportamento não
anula o outro. Esse questionário não tem modulação. Também há um grupo
não desprezível que manifesta esse comportamento como uma resposta para
algum conflito ou violência, que pode ser física ou psíquica. E há ainda
um terceiro grupo, também não desprezível, que tem doenças neurológicas
ou psiquiátricas que são simplesmente diagnosticadas com o TDAH,
escondendo o real problema.
O que podemos falar aos pais que estão passando por essa situação?
Eles precisam se reapropriar dos seus conhecimentos como pais, olhar
mais para seus filhos e ser mais críticos quanto ao diagnóstico. Muitas
vezes este comportamento é um pedido de ajuda da criança. Tem que haver
uma orientação familiar para essas crianças e, se preciso, psicológica.
Se uma criança chegasse ao seu consultório com sintomas como
agressividade, falta de concentração e impulsividade (que, na teoria,
seriam sintomas da TDAH), como a senhora a trataria?
Se ela estivesse um pouco mais agitada, mais agressiva do que o
padrão, tentaria entender o motivo, o contexto e pesquisar os pais
também. Em algumas crianças você vai encontrar o porquê, em outras não. E
essas são as incógnitas da Medicina. Mas, diagnosticá-la com TDAH é
deixar de investigar o real problema. Eu não sou contra medicamentos,
mas não prescrevo drogas psicoativas.
Por que não?
Temos que ter uma cautela especial aos dos efeitos adversos. São
muitas as reações. E com crianças e adolescentes esse cuidado deve ser
infinitamente maior, pois estamos falando de estimulantes do sistema
nervoso central.
Por causa desse diagnóstico, muitas crianças têm tomado a Ritalina ou o Concerta. O que eles podem causar?
Ele é um estimulante e pode causar dependência. O metilfenidato é um
estimulante do sistema nervoso central que tem a mesma ação das
anfetaminas e da cocaína: aumentar a concentração de dopaminas, o
neurotransmissor ligado ao prazer, nas sinapses. Assim, o que acalma a
pessoa é outra dose da droga. Existem outras reações adversas, como
cefaleia, tontura, surtos de insônia, sonolência e o efeito zombie like,
em que a pessoa fica quimicamente contida em si mesma. O que também
vale ressaltar é que não há comprovação científica de que ele funciona.
Uma pesquisa feita pelo Centro de Medicina baseado em evidências da
Universidade de McMaster (Canadá) apontou que dos 10 mil trabalhos que
provaram que o metilfenidato funciona, apenas 12 foram considerados
trabalhos científicos. Destes, foram encontrados que a orientação
familiar tem alta evidência de bons resultados, enquanto o medicamento
tem baixa evidência.
A senhora acredita que o uso indiscriminado do metilfenidato pode ser um exemplo de medicalização da educação?
Seria um exemplo. A medicalização não necessariamente quer dizer dar
remédio e nem necessariamente por médicos, mas transformar um problema
coletivo em uma doença inata. E são muitas as consequências: a primeira
delas a de transformar essa criança em um doente. Mas também pode se
chegar ao ponto de que, quando ela obtiver algum sucesso, não acreditar
que foi por méritos próprios, mas por causa do remédio. Além, claro, de
ocultar os problemas reais.
Confira o questionário de avaliação dos sintomas do
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, que contém 18
situações baseadas no Manual de Diagnóstico e Estatística – IV, da
Associação Americana de Psiquiatria. As respostas variam de nem um pouco
a demais:
1. Não consegue prestar muita atenção a detalhes ou comete erros por descuido nos trabalhos da escola ou tarefas
2. Tem dificuldade de manter a atenção em tarefas ou atividades de lazer
3. Parece não estar ouvindo quando se fala diretamente com ele
4. Não segue instruções até o fim e não termina deveres de escola, tarefas ou obrigações
5. Tem dificuldade para organizar tarefas e atividades
6. Evita, não gosta ou se envolve contra a vontade em tarefas que exigem esforço mental prolongado
7. Perde coisas necessárias para atividades (ex: brinquedos, deveres da escola, lápis ou livros)
8. Distrai-se com estímulos externos
9. É esquecido em atividades do dia-a-dia
10. Mexe com as mãos ou os pés ou se remexe na cadeira
11. Sai do lugar na sala de aula ou em outras situações em que se espera que fique sentado
12. Corre de um lado para outro ou sobe demais nas coisas em situações em que isto é inapropriado
13. Tem dificuldade em brincar ou envolver-se em atividades de lazer de forma calma
14. Não para ou frequentemente está a “mil por hora”
15. Fala em excesso
16. Responde as perguntas de forma precipitada antes de elas terem sido terminadas
17. Tem dificuldade de esperar sua vez
18. Interrompe os outros ou se intromete (ex: intromete-se nas conversas, jogos, etc.)
Fonte:
www.tdah.org.br
Fonte: Gazeta do Povo